Bioética e pesquisa em seres humanos

 

O padre Luiz Antonio Bento, 52 anos, lança, em Maringá, seu segundo livro sobre bioética. Pároco da Igreja São José Operário, Bento é pós-doutor em Bioética e membro da comissão sobre o tema na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Ele também é professor do curso de Medicina da Faculdade Ingá (Uningá). Natural de Cornélio Procópio, Bento completa, em dezembro, 20 anos de sacerdócio.

No livro “Bioética e pesquisa em seres humanos“, que  lançado hoje, padre Bento aprofunda os limites éticos na pesquisa em seres humanos. “Se hoje superamos tantas doenças, como o sarampo e a tuberculose, foram graças às pesquisas em seres humanos. Mas uma sociedade não pode avançar matando outras pessoas’’.

Padre Bento recebeu O Diário na tarde de sexta-feira e falou sobre a opinião da Igreja Católica nos experimentos com células-tronco e na fecundação assistida. Citou os principais dilemas éticos pelos quais passa a medicina e falou que o progresso nem sempre é benéfico. “No passado, o médico era mais ouvido, tinha mais toque. Hoje, os alunos de medicina são quase robôs em consultórios”.

“Uma criança que nasce por fecundação assistida é bonita? Sim, é linda e amada, mas imaginemos que para que ela viesse ao mundo muitas outras foram mortas’’.

Foto: Rafael Silva 

 

 

O Diário – Como e por que o senhor se envolveu com a bioética?

Luiz Antonio Bento – Esse tema me chama atenção desde o tempo do seminário. Porém, na minha época de estudante, não tinha a disciplina de bioética. Eu me interessei pela bioética quando fui enviado a Roma para fazer o mestrado. Um ano e meio depois, em 2003, me envolvi mais ainda no doutorado. Para que tivesse reconhecimento na área de bioética, especificamente, eu fiz o pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O Diário – Quais os maiores dilemas éticos que acompanham a medicina hoje?

Luiz Antonio Bento – São três que estão em grande debate neste momento no Brasil: a problemática ligada ao início e ao final da vida, que são as pesquisas com células-tronco; a fecundação assistida; e o aborto, especialmente o relacionado às crianças com anencefalia. Hoje, sabemos que o Brasil está envelhecendo e as famílias não estão tão numerosas como no passado. Este é outro problema que se impõe atualmente: o tempo de vida está aumentando, mas não temos estrutura para acolher esses idosos no futuro.

O Diário – Por que a Igreja é contra a utilização de células-tronco embrionárias em pesquisas e a favor de pesquisas com células-tronco adultas?

Luiz Antonio Bento – A Igreja é contra porque se trata de vidas. A células-tronco são retiradas de embriões e há uma fase em que eles não suportam a intervenção. Nós ainda não temos uma técnica capaz de retirar uma célula do embrião e fazer com que ele permaneça vivo. Outros tantos cientistas, e não só a Igreja, são contrários ao uso das células-tronco embrionárias. Não é possível, hoje, fazer uma terapia com um embrião sem destruí-lo. É 100% certo que o embrião morrerá. Ora, se o embrião é uma vida humana, ele precisa ser preservado. A Igreja é favorável ao uso das células-tronco adultas porque a experiência não causa morte. O próprio criador da ovelha Dolly e os cientistas de universidades de Nova York e do Japão estão abandonando essa linhagem e fazendo pesquisas com células-tronco adultas porque são mais promissoras. No Brasil são, pelo menos, 78 doenças e 16 tipos de câncer tratados com células-tronco adultas. Não temos no mundo nenhum registro de resultado positivo com células-tronco embrionárias.

O Diário – O senhor disse que o embrião é um ser humano. A partir de quando somos considerados pessoas?

Luiz Antonio Bento – A partir do momento em que o espermatozóide se encontra com óvulo e acontece a fecundação. A biologia moderna e a embriologia consideram isso. Essa célula embrionária vai ser tão grande e forte como aqueles que estão agora à nossa frente.

O Diário – A intervenção no processo de procriação natural, como a fertilização in vitro, é bem vista?

Luiz Antonio Bento – A Igreja não aceita porque supõe a manipulação de embriões. Além disso, o filho não vai ser resultado de uma relação de amor entre o casal, mas de uma técnica. Uma criança que nasce por fecundação assistida é bonita? Sim, é linda e amada, mas imaginemos que para que ela viesse ao mundo muitas outras foram mortas. Quando a ovelha Dolly nasceu foram feitas 277 tentativas. Significa que 276 ovelhinhas foram mortas. Ela só veio na tentativa número 277. Na fecundação assistida é a mesma coisa. O embrião é vida humana, sim. Eu desafio alguém me dizer que não seja. Se não é vida humana, que vida é, então? Se é um amontoado de células, é exatamente aquilo que somos também.

O Diário – Qual o limite entre o certo e errado em pesquisas com seres humanos?

Luiz Antonio Bento – O que deve limitar a pesquisa é a dignidade à pessoa humana. São quatro princípios fundamentais que norteiam os experimentos com humanos: autonomia, a pessoa deve dizer se aceita ou não participar. O outro é beneficência, significa que o cientista tem que atuar para fazer o bem ao sujeito que participa da pesquisa. O terceiro princípio é o da não maleficência, no qual não basta fazer o bem, é preciso não fazer o mal. O quarto é o da justiça, em que o sujeito tem o direito de participar dos resultados. Se hoje superamos tantas doenças, como o sarampo e a tuberculose, foram graças às pesquisas. Mas uma sociedade não pode avançar matando outras pessoas. A pesquisa tem que acontecer, a Igreja é favorável às pesquisas.

O Diário – E as pesquisas com animais?

Luiz Antonio Bento – Podem ser feitas, desde que se respeitem os animais, tanto o número utilizado e como são usados. Que as experiências não exponham os animais ao sofrimento.

O Diário – O que o progresso mudou na medicina?

Luiz Antonio Bento – Houve avanços, mas infelizmente alg,umas coisas mudaram para pior. A medicina, no passado, por exemplo, era mais humana e hoje é mais técnica. Não podemos ter um profissional apenas competente, ele também precisa ter humanidade. Precisamos equilibrar: competência em uma mão e humanidade na outra. Este é o profissional que gostaríamos de encontrar sempre que entrarmos em um consultório ou hospital. A técnica da medicina mudou muito. No passado, o médico era mais ouvido, tinha mais toque. Os alunos de medicina estão sendo preparados para operar máquinas, para apertar botões. Eles são quase robôs em consultórios. E o paciente é o mesmo de 100 anos atrás. A medicina avançou muito no lado positivo, mas também se esqueceu do humano, que está menosprezado na área da saúde. Tenho certeza que os cachorrinhos não esperam desse jeito nas filas e em macas pelos corredores, que são, muitas vezes, locais frios ou quentes demais e tediosos.

Fonte: O Diário

 

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