Intensificam-se os ataques contra a família

 Poucos dias após o Supremo Tribunal Federal ter usurpado as funções do Congresso Nacional, equiparando direitos civis aos homossexuais, vimos Brasília ser palco de dois atos que intensificam ainda mais os ataques contra a família, num processo de explícita determinação do governo federal em avançar no desmonte da estrutura natural da família, tendo em vista atingir todos os objetivos do Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH3).

 


Marcha contra Homofobia em frente ao STF

No dia 17 de maio, em frente a Biblioteca Nacional, ocorreu a chamada “vigília ecumênica” contra a homofobia, promovida pelos Grupos LGBT 1, com velas acesas na Esplanada dos Ministérios e a exibição de um beijaço público de casais homossexuais na Universidade de Brasília 2, por ocasião da abertura do 8º Seminário LGBT, com patrocínio de verbas públicas.

As velas acesas lembravam Baudelaire, que “dera expressão lírica à transgressão em boa parte das Flores do Mal3 , como no último verso de “L’irrémédiable”: “tête-à-tête sombre et limpide/ qu’un coeur devenu son miroir / Quando o coração se torna seu (do demônio) espelho / a confrontação é sombria e límpida (…) un phare ironique, infernal, / Flambeau des grâces sataniques / Soulagement et gloire uniques, – La conscience dans le Mal! Consolo e glória singulares / a Consciência enterrada no Mal!4

 O mal que vai se agigantando

 As imagens exibidas pela UOL do beijaço na Universidade de Brasília mostram as expressões de quem são hoje vítimas de uma instrumentalização de poder, que não se dão conta de que estão sendo usados para avançar ainda mais numa transgressão da “própria condição biológica do ser humano, e não aceita a natureza da identidade sexual, daí o afã de romper o que chamam de estereótipos, no direito de se libertar da própria identidade”.5

Com isso, vamos assistindo, de forma célere, “o mal que vai se agigantando, agindo de forma cada vez mais intensa contra a sacralidade da vida humana, a dignidade da pessoa, a família e, principalmente, os mais caros valores da civilização cristã em nosso País”.6

Enquanto isso, a presidente Dilma Roussef, dois dias depois, recebeu a rainha Sílvia, da Suécia, para reforçar a campanha pela “lei da palmada”, que teve Xuxa Meneghel, a apresentadora de tevê, como garota-propaganda do governo, em evento na Câmara dos Deputados, acompanhada pela Secretária Nacional dos Direitos Humanos, Maria do Rosário. A senadora Marta Suplicy (PT-SP), que desarquivou o PLC 122 (com apoio entusiástico do presidente da Casa, José Sarney7), será a relatora do projeto que proíbe a palmada em crianças, cerceando ainda mais a autoridade dos pais no processo educativo dos filhos, como já acontece com os professores em sala de aula, que não podem repreender, corrigir e punir os abusos dos estudantes que recusam o mínimo de disciplina.

Nesse contexto, pais e professores devem ser “caras bacanas”, e ponto final. Educação virou entretenimento. Fora disso, o Estado estimula os filhos em casa e os alunos na escola, à rebeldia, com amparo legal. Nesse sentido, direitos estão acima dos deveres, e a família perde a sua função social, para ser apenas um ajuntamento de indivíduos vulneráveis às pressões do hedonismo e do consumismo. E pais e professores terão de engolir isso, e darem conta sozinhos, dos desarranjos sócio-econômicos e psicológicos desta perversa situação. E amplia-se assim o número de desamparados, que não sabem a que instância recorrer, em meio às explosões de conflitos e violências e tantos outros danos por toda a parte, com as “mais diversas dificuldades existenciais e interpessoais, agravadas pela realidade de uma sociedade complexa, onde frequentemente as pessoas, os casais, as famílias são deixadas sozinhas a braços com os seus problemas.”8

A Suécia, por exemplo, conforme expõe Jonas Himmelstrand “está cheia de problemas de saúde ligados ao estresse em adultos, saúde psicológica cada vez menor e medíocres resultados escolares entre os jovens, elevado número de pessoas em licença médica e falta de capacidade de os pais se conectarem com seus filhos, ‘tudo indicando deterioração’”9 É esta a utopia social anárquica que a “rainha dos baixinhos” quer ajudar o governo brasileiro implantar em nosso País?

Camille Paglia e a apologia a Sade: Ideologia do maligno

Ainda no mesmo dia em que Xuxa esteve no Câmara dos Deputados, a intelectual Camille Paglia, em São Paulo, em palestra no teatro do Sesc Vila Mariana, no 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, empolgou a platéia, que a aplaudiu de pé, depois de duas horas ininterruptas dizendo não acreditar em Deus, não ter “nenhum sentimento por Jesus” e concluir afirmando ser admiradora de Sade e “grande estudante do sadomasoquismo como idéia”10

A palestra de Paglia diz muito do que está acontecendo, do pano de fundo ideológico deste processo realmente maligno, que pretende ser fulminante contra a família, no maior ataque (altamente sofisticado) sem precedentes na história, contra a primeira e principal instituição humana.

“Pertence à essência da tentação o seu aspecto moral: ela não nos convida diretamente para o mal, isso seria grosseiro”11. Por isso, as ideologias do mal acenam com as delícias da epiderme, enquanto espolia a alma, tornando-a refém de simulacros, num caleidoscópio de ilusões, que a faz desviar-se num cipoal de enganos, até perder-se no redemoinho das piores aflições sisíficas. “O grande mal procede da falsa e mera visão subjetivista da felicidade, na qual ‘a plenitude do bem’ ficou substituída somente pelo ‘somatório dos prazeres’”.12

O que está em jogo em toda esta questão, é a felicidade do ser humano, felicidade esta que está seriamente comprometida sem a sua base constitutiva, que é a família, suporte da pessoa humana, pois sabemos que “na raiz de qualquer violência contra o próximo, há uma cedência à lógica do maligno, isto é, daquele que ‘foi assassino desde o princípio’ (Jo 8,44)”.13

O “projeto de felicidade” proposto pelo ministro do STF, Luiz Fux, ao equiparar direitos civis aos homossexuais, repete a tragédia adâmica (ao psiu da serpente), quando o primeiro casal voltou as costas para Deus, instigado pelo tentador. “A proibição não foi eficaz em relação à primeira árvore. O desterro é a solução lógica”14. Estamos hoje portanto revivendo o drama do Gênesis. “O tentador não é tão rude a ponto de nos propor diretamente a adoração ao diabo” 15, mas não podemos ignorar de que “a sociedade de massas e ainda as possibilidades que surgiram através do domínio técnico do mundo criaram também novas categorias do mal”16. Nesse sentido, somente na estrutura natural da família que é possível “criar possibilidades sãs de sociabilidade” 17, para evitar que o ser humano viva “uma solidão radical”.18

Anarquismo e niilismo fomentam o prazer titânico que se alimenta da dor alheia

Quando Paglia destaca sua admiração por Sade (que “exaltou as sociedades totalitárias em nome da liberdade frenética”19 e também uma “liberdade herética” 20, entendemos então que as correntes culturais do anarquismo e do niilismo estão imperantes no panorama atual. “Os excessos pessoais de Sade voltavam-se primordialmente para a sodomia e a corrupção dos jovens”.21 A sua liberdade “não é a dos princípios, mas sim a dos instintos”22, especialmente a do instinto sexual, “o cego impulso que exige a posse integral dos seres a troco mesmo de sua destruição”.23 Por isso, “o êxito de Sade nesta nossa época, explica-se devido a um sonho igualmente comum à sensibilidade contemporânea: a reivindicação da liberdade total e a desumanização operada a frio pela inteligência”24, sabendo que “a reivindicação total da liberdade finda na escravidão da maioria”25.

Para o marquês de Sade, “a virtude não pode triunfar”.26 Para ele, era “preciso matar o coração, essa ‘fraqueza do espírito’”.27 Sua voluptuosidade foi seguida por um prazer titânico e insaciável, que se alimentava até a exaustão, com a dor do outro. Nisso ele se comprazia: em ver o seu próximo destruído, em dores lancinantes. A primeira vez que suas obras foram permitidas ao público, ainda restrito, ficaram inseridas na coleção intitulada “Enfer”, da Biblioteca Nacional de Paris, em 1810. Geoffrey Gorer destacou “as conexões filosóficas e políticas entre as idéias do marquês e o nazismo”28, de “um niilismo místico próximo ao culto de Dioniso, de Nietzsche” 29. Roger Shattuck diz que é difícil explicar a reabilitação de Sade: “Atribuo-a mais a um sinistro desejo de morte pós-nietzschiano, característico do século XX. Esse desejo de morte busca a libertação absoluta, sabendo que levará à destruição absoluta – física, moral e espiritual”.30 Jean Paulhan talvez melhor definiu o que representa as idéias de Sade, que tanto empolgam Camille Paglia: “Exigimos a felicidade; também exigimos que outros sejam menos felizes do que nós!”31 E então fica a constatação: “Sade revelou o terrível segredo de que nosso supremo prazer somente pode ser atingido por meio da dor – sofrida por nós mesmos, mais comumente, dor infligida a outros”32 pois “o máximo de prazer coincide com o máximo de destruição”33, para “possuir aquilo que se mata”34 . A própria Simone de Beauvoir (pioneira do feminismo radical) reconhece em Sade “um egoísmo às raias da loucura”35, em que “o coito e a crueldade são idênticos”36. E Michel Foucault destaca o sadismo como “um imenso fato cultural”.37, corroborado por outros estudiosos como Crocke, de que tais idéias formam “um sistema filosófico tão escandalosamente desumano”38.

Em Personas Sexuais, Camille Paglia estabelece “o nexo entre prazer sexual e atos de tortura e assassinato”39, em Sade. Carolyn J. Dean, em pesquisa sobre Sade, “liga a sexualidade não ao prazer, mas ao terror”40 e “acolhe de bom grado essa associação do sexo com o egoísmo, a crueldade, o crime e o assassinato”41. Por isso, a obsessão sexual do nosso tempo está correlata ao terror. Talvez isso explica que Thriller, de Michael Jackson seja a música de maior sucesso do século XX. E Jackson emblematiza a agudeza da crise de identidade e o desespero da pessoa humana perdida, porque seduzida pelas flores do mal, numa cultura de morte, com furor demoníaco.42

E assim querem destruir a família, para aniquilar a pessoa humana. Tudo isso no contexto do “eclipse do valor da vida”43, “caracterizada pela imposição de uma cultura anti-solidária, que em muitos casos se configura como verdadeira ‘cultura de morte’. É ativamente promovida por fortes correntes culturais, econômicas e políticas, portadoras de uma concepção eficientista da sociedade”44. No conflito entre cultura da morte x cultura da vida “estão em causa as questões mais profundas a respeito do homem”45, e é a partir da defesa da família e da inviolabilidade da vida humana, de modo integral, que começamos a vencer as ideologias do mal, salvaguardando o ser humano daquilo que quer destruí-lo. E em meio a tudo isso, certamente, “a fé cristã tem muito mais futuro do que as ideologias que a convidam a abolir a si mesma”46.

Bibliografia:

  1. (http://noticias.uol.com.br/album/110517vigilia_album.jhtm?abrefoto=7)
  2. (http://noticias.uol.com.br/album/110517beijaco_album.jhtm?abrefoto=13 / http://noticias.uol.com.br/album/110517beijaco_album.jhtm?abrefoto=13#fotoNav=14
  3. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 238; Companhia das Letras, 1998

  4. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 239; Companhia das Letras, 1998

  5. (http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2010/03/15/a-ideologia-inumana-e-totalitaria-do-pndh3/)

  6. (http://www.deuslovult.org/2010/09/04/carta-ao-povo-catolico-paulista-prof-hermes-rodrigues-nery/)

  7. (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/918034-sarney-promete-agilizar-a-tramitacao-do-projeto-contra-palmadas.shtml)

  8. Evangelium Vitae, 11

  9. (http://escolaemcasa.blogspot.com/2011/05/suecia-um-alerta-contra-o-extremismo-do.html)

  10. (http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/2011/05/19/grande-pornografos-foram-criados-em-familias-catolicas-diz-a-ensaista-camille-paglia-em-sp.jhtm)

  11. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 41, Ed. Planeta), 3ª reimpressão, 2007

  12. Karol Wojtila, Amor e Responsabilidade, p. 147, Edições Loyola, 1982

  13. Evangelium Vitae, 11 (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae_po.html)

  14. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 61, Companhia das Letras, 1998

  15. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré, pp. 51-52, Ed. Planeta), 3ª reimpressão, 2007

  16. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, p. 31, Ed. Imago, 1997

  17. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, p. 31, Ed. Imago, 1997

  18. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, p. 31, Ed. Imago, 1997

  19. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 71,Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  20. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 63, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  21. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 233, Companhia das Letras, 1998

  22. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 60, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  23. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 60, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  24. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 71, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  25. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 65, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  26. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 231, Companhia das Letras, 1998

  27. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 66, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  28. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 235, Companhia das Letras, 1998

  29. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 238, Companhia das Letras, 1998

  30. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 236, Companhia das Letras, 1998

  31. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 237, Companhia das Letras, 1998

  32. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 237, Companhia das Letras, 1998

  33. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 67, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  34. Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 67, Edição Livros do Brasil Lisboa, 1951

  35. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 241, Companhia das Letras, 1998

  36. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 241, Companhia das Letras, 1998

  37. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 243, Companhia das Letras, 1998

  38. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 244, Companhia das Letras, 1998

  39. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 247, Companhia das Letras, 1998

  40. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 249, Companhia das Letras, 1998

  41. Roger Shattuck, Conhecimento Proibido, p. 249, Companhia das Letras, 1998

  42. http://diasimdiatambem.wordpress.com/2009/06/28/michael-jackson-e-a-cultura-da-morte-que-se-volta-contra-o-ser-humano/

  43. Evangelium Vitae, 10 (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae_po.html)

  44. Evangelium Vitae, 12 (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae_po.html)

  45. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 105, Ed. Planeta), 3ª reimpressão, 2007

  46. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, p. 205, Ed. Imago, 1997

Prof. Hermes Rodrigues Nery, coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté

 

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