A ética da Vida !

 

 

 

 

Antes de tudo, a Vida

 

“Que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou, que poderá o homem dar em troca de sua vida?” (Mt 16, 26)

 

Já que o homem não existe por si e de forma isolada, mas se constitui num feixe de relações de interdependência com os outros (pessoas, coisas, natureza, sociedade) e com o mundo em geral que se expande em universo, o exercício da ética deve levar em conta valores essenciais que se referem, acima de tudo, à Vida.

Referir-se à Vida, nos leva a considerar que ela não se restringe às subjetividades em si, ou apenas aos aspectos materiais, biológicos e psíquicos do convívio humano; e nem mesmo unicamente ao humano. Ela abrange todo o ambiente que a sustenta, no qual se insere e atua o ser humano; e vai além, remetendo-nos ao mistério que ainda não alcançamos – sua origem – para a qual muitos admitem um criador (ou seja, uma vontade livre e soberana), enquanto, para outros, representa obra do mero acaso.

Aqui, é preciso reconhecer que a ciência e a tecnologia, com todo o avanço até hoje alcançado no sentido de decifrar, manipular, reproduzir, transplantar, redirecionar, tentar corrigir ou aperfeiçoar os processos vitais, limitam-se a atuar sobre material vivo pré-existente, nunca na sua criação a partir de elementos constituintes mais simples. Ou seja, não produzimos vida; são atributos dela mesma se transformar, se expandir, se reproduzir, morrer aqui e renascer ali, ou até mesmo – diria eu – se dar a conhecer e se deixar manipular.

Estaríamos, pois, iludidos se, diante das possibilidades que ela nos oferece para compreendê-la e cooperarmos com ela, acreditássemos, a partir daí, que a dominamos.

Mesmo as mais extraordinárias conquistas em curso, em termos de inteligência artificial, não nos permitem visualizar uma ultrapassagem da máquina – que é concebida – ao modelo original da mente humana – que a concebe – em suas, já dadas, capacidades e possibilidades que aí se mostram em expansão.

A Ética da Vida na Consciência do Homem

               “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8, 12)

 

Embora o termo bioética seja relativamente recente e venha sendo aplicado de forma mais restrita aos procedimentos éticos nas biociências, pode-se dizer que toda ética – que busca refletir sobre o comportamento humano com base nos valores subjacentes que ditam nossas atitudes e decisões, inclusive na aplicação dos conhecimentos que vamos adquirindo – emana da própria Vida, podendo ser apreendida pela consciência receptiva, que é a marca da humanidade.

Só o ser humano pode ser ético, e ao alcançar uma certa maturidade.

Torna-se, pois, relevante refletir sobre as questões éticas (ou bioéticas) que partem do valor e da dignidade de todo ser humano, não como evidência dada por si mesma e em caráter absoluto; e ainda menos como sujeita a critérios pessoais ou mesmo, objetivos e científicos. Importa considerar uma antropologia que nos permita responder quem somos, com a consciência das relações que nos situam num horizonte mais amplo que, indo além de nós mesmos, abrange toda a Vida em sua essência.

É pela consciência que se torna possível ao ser humano – e só a ele – ter acesso ao conhecimento do “ser que ele é em sua essência” e, ao pôr-se de acordo com ela, realizá-la, realizando-se autenticamente. Isso significa que ele só se torna verdadeiramente humano, isto é, livre, e de maneira responsável, na medida em que aprende a sair de si (eu e suas defesas), a abrir-se confiantemente à Vida e a deixar-se conduzir pela Verdade do seu Ser.

 

Inclusão e participação na constituição do Eu

                 “… conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8, 32) 

 

Cada individualidade, percebida como eu, precisa evidentemente constituir-se através de um processo que o vai diferenciando do não-eu, que é o outro. Mas é aqui que o risco da separação como oposição (ou eu ou o outro) e não como participação e complementariedade (ser eu com o outro) também se apresenta e pode consolidar-se.

Educar para a liberdade responsável não se resume a exercer autoridade, exigindo comportamentos já selecionados, sem uma verdadeira escuta do diferente, que leva em conta a realidade atual do educando, as possibilidades que podem ser esperadas e estimuladas e, acima de tudo, os sentimentos envolvidos na relação com ele.

Trata-se mais de confiar e esperar que comportamentos e atitudes – desde que possibilitados – sejam escolhidos e assumidos conscientemente como a melhor opção, entre outras, para a sua própria realização como pessoa humana. E isso exige tempo, paciência, aceitação de erros próprios e alheios, além de diálogo com muita escuta, virtudes só encontradas, me parece, em quem se deixa orientar pela Sabedoria da Vida (ou o próprio Ser de Deus), que pode ser descoberta e encontrada em todos nós como princípio (ou graça), mas nunca como propriedade particular.

 

Confiança é fundamental

               “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas”. (Mt 11, 29)

 

O inevitável egocentrismo infantil (por necessidade e dependência) requer a contrapartida da maturidade adulta – que é amor como acolhimento incondicional e inclusão – e eles não podem, portanto, excluir-se mutuamente, mas necessariamente coexistir durante todo o lento e freqüentemente difícil processo de crescimento e amadurecimento, onde o exclusivo receber vai sendo substituído gradativamente pelo compartilhar e, a partir daí, pelo doar-se, na medida das possibilidades e limites – do momento e de cada um – que vai se traduzindo em respeito e tolerância fundamentados na confiança recíproca. A oposição por parte do adulto, na forma de ameaça de rejeição e exclusão, pode facilmente obter um comportamento desejado na criança, mas ele não será autêntico. Estimula-se, assim, a falsidade e a hipocrisia.

Relacionamentos, no que diz respeito ao humano, são estabelecidos a partir de atitudes individuais fundamentadas ou na confiança (e em valores conscientemente assumidos como próprios no processo de amadurecimento e socialização), ou no nível emocional inconsciente ainda desorientado onde predominam o medo, a hostilidade e a necessidade de controle sobre o outro e sobre o mundo, vistos como ameaça.

Então, como poderíamos exigir de uma pessoa que nunca se sentiu acolhida na comunidade humana manifestar, em relação aos outros, esse mesmo acolhimento, a menos que a acolhamos nós, se é que já alcançamos essa condição de ajudá-la a descobrir em si mesma essa possibilidade já dada e à espera de efetivar-se para seu próprio benefício e realização?

 

O sentir-se excluído opera na marginalidade

               “… quem caminha no escuro não sabe para onde vai!” (Jo 12, 35)

 

Sair das autodefesas de forma construtiva – ao invés de competitiva e destrutiva – na conquista de uma liberdade responsável parece ser o maior desafio a enfrentar para cada um de nós, seres humanos, porque uma atitude confiante básica – a que chamamos – nos é necessária para isso.

E essa atitude muitas vezes nos falta porque, assim como pode ser promovida, também pode ter sido dificultada – e às vezes até mesmo impedida – pelo ambiente social que nos rodeia e nos influencia, particularmente nos primeiros anos de vida, quando somos mais vulneráveis e inteiramente dependentes dele. E não é raro que essa dependência acabe por condicionar, principalmente nos menos favorecidos, uma falta de confiança no mundo e em si mesmos que os encarcera em suas defesas – a princípio tão imprescindíveis para a sobrevivência – a ponto de inviabilizar níveis suficientes de desenvolvimento para assumir-se responsavelmente, expostos que são a toda sorte de condições, exigências, injustiças, contradições, emoções descontroladas e violência por parte dos “responsáveis”, diretos ou indiretos, que também não alcançaram aquela condição.

Vale dizer: mesmo que não assumidas conscientemente, cada individualidade está sujeita, por uma questão de sobrevivência, a um processo contínuo de escolhas que refletem ou um fechamento temeroso ou uma abertura esperançosa para ir além de seus medos e condicionamentos, quer se encontrem conscientizados e compreendidos, quer inconscientizados pela negação.

Assim, o ser humano é também o único ente – ou existente – que tem a possibilidade de recusar-se ao seu ser mais próprio, isto é, de permanecer cego ou indiferente a ele por ignorá-lo ou temê-lo e, alienado de si mesmo (inconsciência), perder-se na massa (a gente, todo mundo, o grupo) ou, egoisticamente, destacar-se dela na conquista de um poder que não lhe é próprio, mas que esconde um permanente conflito consigo mesmo onde residem sentimentos negados de mágoa, culpa e, a nível ainda mais profundo, de medo frente ao desamparo e à impotência, cedo e terrivelmente já experimentados (Hitler seria um bom exemplo). É também aí que a agressividade, reprimida e acumulada, converte-se fatalmente em violência justificada contra o(s) outro(s), ao invés de assumida responsavelmente como própria e adequadamente encaminhada.

 

Encontrar sentido para a existência

“Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”. (Jo 10, 10b)

 

Crescer ou amadurecer é, portanto, um processo de autoconhecimento que consiste, não só em nos aproximarmos e nos tornarmos conscientes dos obstáculos que nos criaram e das respostas emocionais defensivas que ainda nos cerceiam – e das quais necessitamos nos libertar – mas, para além disso, em acreditar no que potencialmente já somos como possibilidades a desenvolver e que depende de cada um de nós assumir e realizar. É um processo de descoberta dos “talentos” adormecidos que nos solicitam e que, uma vez despertos, ousamos multiplicar, e que, não atendidos, respondem por sentimentos de “cobrança”, de carência ou de vazio.

Mesmo porque, o que todos nós sentimos como carência nem sempre é a falta de algo que nos vem de fora ou que, ilusoriamente, alguém possa nos dar. O desejo de completude nos leva a irmos sempre para além de nós mesmos e precisa ser reconhecido como uma falta, ou sede referente ao potencial ainda não concretizado no caminho da plenitude do amor e da unidade, em que progressivamente passamos da necessidade primária de nos sentirmos aceitos para a possível descoberta de nos sentirmos também capazes de poder acolher, adquirindo sentido próprio a experiência de gratuidade, onde não existe sujeito e objeto de amor e sim inclusão de cada um e comunhão de todos numa totalidade maior que nos transcende.

Ou seja, o outro com o qual nos confrontamos e no qual confiamos ou ao qual tememos, evitamos ou atacamos, pode sempre ser encontrado dentro de nós mesmos. E é na medida em que o encontramos, compreendemos e acolhemos que podemos também sentir-nos verdadeiramente acolhidos. Este é o sentido do perdão que está contido na incondicional aceitação de nós mesmos e que possibilita o despreendimento que nos leva a nos reencontrarmos em cada outro, em convivência pacífica com o diferente.

 

A caminho de uma ética cristã

               “Deus é Amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1Jo 4, 16)

 

As maiores dificuldades em relação a conceitos que implicam relações humanas como: amor, paz, confiança, fidelidade, caridade, perdão, obediência, respeito, consideração, tolerância, solidariedade, compaixão, e outros tantos, reside no fato de que oferecer conceitos não é suficiente para promover a experiência de se sentir acolhido como parte única e participativa duma unidade amorosa maior e totalizadora que engloba e assume todas as diferenças. E à força de serem repetidos para os outros, mas destituídos de significado pessoal e vivencial, esses conceitos mais separam do que unem, numa verdadeira torre de babel, onde falta o diálogo e o entendimento porque cada qual, sustentando uma linguagem e interpretação próprias, carregadas de racionalizações e justificativas – ao mesmo tempo identificadas como a única e absoluta verdade – se recusa a escutar e entender a linguagem do outro – do diferente, visto quase sempre como inimigo. E isso faz parte do sistema de defesa, ou, como se diz: “a melhor defesa é o ataque”.

Tem me sido dado observar que há muitos “ateus” de boa vontade que manifestam uma confiança quase ilimitada na Sabedoria da Vida como algo que os transcende e à qual se submetem, enquanto tantas outras pessoas “religiosas” – na falta desta fé – e, em troca de uma certa segurança psíquica, apegam-se de forma tão dependente a estruturas e grupos, que se vêem impedidas de ir além e de chegar a si mesmas, no sentido de dar uma resposta pessoal e autêntica à pergunta de Cristo: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8, 29) ou: Quem é você e quem sou eu para você? Esta é a prisão, acredito, da qual os não-religiosos querem estar livres.

É de supor que os primeiros estejam mais próximos de Jesus que nos ensina a ultrapassar a lei, antes necessária, e nos precede no sentimento filial de confiança e de entrega ao Pai acolhedor, que não faz acepção de pessoas e – fonte da Vida – a todos disponibiliza sua Sabedoria.

          Se almejamos, portanto, nos aproximar de uma ética cristã e defendê-la, sejamos os primeiros a nos dedicar à ESCUTA e a ver o diferente com o olhar de Cristo, que compreendeu, acolheu, perdoou e amou também aqueles que não puderam aceitá-lo.                   

Nilza Maria F. de Lacerda
Psicóloga, formada em Biologia, com estudos nas áreas de Filosofia, Teologia, Antropologia  e Sociologia. Antes de tudo, a Vida

“Que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou, que poderá o homem dar em troca de sua vida?” (Mt 16, 26)

 

Já que o homem não existe por si e de forma isolada, mas se constitui num feixe de relações de interdependência com os outros (pessoas, coisas, natureza, sociedade) e com o mundo em geral que se expande em universo, o exercício da ética deve levar em conta valores essenciais que se referem, acima de tudo, à Vida.

Referir-se à Vida, nos leva a considerar que ela não se restringe às subjetividades em si, ou apenas aos aspectos materiais, biológicos e psíquicos do convívio humano; e nem mesmo unicamente ao humano. Ela abrange todo o ambiente que a sustenta, no qual se insere e atua o ser humano; e vai além, remetendo-nos ao mistério que ainda não alcançamos – sua origem – para a qual muitos admitem um criador (ou seja, uma vontade livre e soberana), enquanto, para outros, representa obra do mero acaso.

Aqui, é preciso reconhecer que a ciência e a tecnologia, com todo o avanço até hoje alcançado no sentido de decifrar, manipular, reproduzir, transplantar, redirecionar, tentar corrigir ou aperfeiçoar os processos vitais, limitam-se a atuar sobre material vivo pré-existente, nunca na sua criação a partir de elementos constituintes mais simples. Ou seja, não produzimos vida; são atributos dela mesma se transformar, se expandir, se reproduzir, morrer aqui e renascer ali, ou até mesmo – diria eu – se dar a conhecer e se deixar manipular.

Estaríamos, pois, iludidos se, diante das possibilidades que ela nos oferece para compreendê-la e cooperarmos com ela, acreditássemos, a partir daí, que a dominamos.

Mesmo as mais extraordinárias conquistas em curso, em termos de inteligência artificial, não nos permitem visualizar uma ultrapassagem da máquina – que é concebida – ao modelo original da mente humana – que a concebe – em suas, já dadas, capacidades e possibilidades que aí se mostram em expansão.

A Ética da Vida na Consciência do Homem

               “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8, 12)

 

Embora o termo bioética seja relativamente recente e venha sendo aplicado de forma mais restrita aos procedimentos éticos nas biociências, pode-se dizer que toda ética – que busca refletir sobre o comportamento humano com base nos valores subjacentes que ditam nossas atitudes e decisões, inclusive na aplicação dos conhecimentos que vamos adquirindo – emana da própria Vida, podendo ser apreendida pela consciência receptiva, que é a marca da humanidade.

Só o ser humano pode ser ético, e ao alcançar uma certa maturidade.

Torna-se, pois, relevante refletir sobre as questões éticas (ou bioéticas) que partem do valor e da dignidade de todo ser humano, não como evidência dada por si mesma e em caráter absoluto; e ainda menos como sujeita a critérios pessoais ou mesmo, objetivos e científicos. Importa considerar uma antropologia que nos permita responder quem somos, com a consciência das relações que nos situam num horizonte mais amplo que, indo além de nós mesmos, abrange toda a Vida em sua essência.

É pela consciência que se torna possível ao ser humano – e só a ele – ter acesso ao conhecimento do “ser que ele é em sua essência” e, ao pôr-se de acordo com ela, realizá-la, realizando-se autenticamente. Isso significa que ele só se torna verdadeiramente humano, isto é, livre, e de maneira responsável, na medida em que aprende a sair de si (eu e suas defesas), a abrir-se confiantemente à Vida e a deixar-se conduzir pela Verdade do seu Ser.

 

Inclusão e participação na constituição do Eu

                 “… conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8, 32) 

 

Cada individualidade, percebida como eu, precisa evidentemente constituir-se através de um processo que o vai diferenciando do não-eu, que é o outro. Mas é aqui que o risco da separação como oposição (ou eu ou o outro) e não como participação e complementariedade (ser eu com o outro) também se apresenta e pode consolidar-se.

Educar para a liberdade responsável não se resume a exercer autoridade, exigindo comportamentos já selecionados, sem uma verdadeira escuta do diferente, que leva em conta a realidade atual do educando, as possibilidades que podem ser esperadas e estimuladas e, acima de tudo, os sentimentos envolvidos na relação com ele.

Trata-se mais de confiar e esperar que comportamentos e atitudes – desde que possibilitados – sejam escolhidos e assumidos conscientemente como a melhor opção, entre outras, para a sua própria realização como pessoa humana. E isso exige tempo, paciência, aceitação de erros próprios e alheios, além de diálogo com muita escuta, virtudes só encontradas, me parece, em quem se deixa orientar pela Sabedoria da Vida (ou o próprio Ser de Deus), que pode ser descoberta e encontrada em todos nós como princípio (ou graça), mas nunca como propriedade particular.

 

Confiança é fundamental

               “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas”. (Mt 11, 29)

 

O inevitável egocentrismo infantil (por necessidade e dependência) requer a contrapartida da maturidade adulta – que é amor como acolhimento incondicional e inclusão – e eles não podem, portanto, excluir-se mutuamente, mas necessariamente coexistir durante todo o lento e freqüentemente difícil processo de crescimento e amadurecimento, onde o exclusivo receber vai sendo substituído gradativamente pelo compartilhar e, a partir daí, pelo doar-se, na medida das possibilidades e limites – do momento e de cada um – que vai se traduzindo em respeito e tolerância fundamentados na confiança recíproca. A oposição por parte do adulto, na forma de ameaça de rejeição e exclusão, pode facilmente obter um comportamento desejado na criança, mas ele não será autêntico. Estimula-se, assim, a falsidade e a hipocrisia.

Relacionamentos, no que diz respeito ao humano, são estabelecidos a partir de atitudes individuais fundamentadas ou na confiança (e em valores conscientemente assumidos como próprios no processo de amadurecimento e socialização), ou no nível emocional inconsciente ainda desorientado onde predominam o medo, a hostilidade e a necessidade de controle sobre o outro e sobre o mundo, vistos como ameaça.

Então, como poderíamos exigir de uma pessoa que nunca se sentiu acolhida na comunidade humana manifestar, em relação aos outros, esse mesmo acolhimento, a menos que a acolhamos nós, se é que já alcançamos essa condição de ajudá-la a descobrir em si mesma essa possibilidade já dada e à espera de efetivar-se para seu próprio benefício e realização?

 

O sentir-se excluído opera na marginalidade

               “… quem caminha no escuro não sabe para onde vai!” (Jo 12, 35)

 

Sair das autodefesas de forma construtiva – ao invés de competitiva e destrutiva – na conquista de uma liberdade responsável parece ser o maior desafio a enfrentar para cada um de nós, seres humanos, porque uma atitude confiante básica – a que chamamos – nos é necessária para isso.

E essa atitude muitas vezes nos falta porque, assim como pode ser promovida, também pode ter sido dificultada – e às vezes até mesmo impedida – pelo ambiente social que nos rodeia e nos influencia, particularmente nos primeiros anos de vida, quando somos mais vulneráveis e inteiramente dependentes dele. E não é raro que essa dependência acabe por condicionar, principalmente nos menos favorecidos, uma falta de confiança no mundo e em si mesmos que os encarcera em suas defesas – a princípio tão imprescindíveis para a sobrevivência – a ponto de inviabilizar níveis suficientes de desenvolvimento para assumir-se responsavelmente, expostos que são a toda sorte de condições, exigências, injustiças, contradições, emoções descontroladas e violência por parte dos “responsáveis”, diretos ou indiretos, que também não alcançaram aquela condição.

Vale dizer: mesmo que não assumidas conscientemente, cada individualidade está sujeita, por uma questão de sobrevivência, a um processo contínuo de escolhas que refletem ou um fechamento temeroso ou uma abertura esperançosa para ir além de seus medos e condicionamentos, quer se encontrem conscientizados e compreendidos, quer inconscientizados pela negação.

Assim, o ser humano é também o único ente – ou existente – que tem a possibilidade de recusar-se ao seu ser mais próprio, isto é, de permanecer cego ou indiferente a ele por ignorá-lo ou temê-lo e, alienado de si mesmo (inconsciência), perder-se na massa (a gente, todo mundo, o grupo) ou, egoisticamente, destacar-se dela na conquista de um poder que não lhe é próprio, mas que esconde um permanente conflito consigo mesmo onde residem sentimentos negados de mágoa, culpa e, a nível ainda mais profundo, de medo frente ao desamparo e à impotência, cedo e terrivelmente já experimentados (Hitler seria um bom exemplo). É também aí que a agressividade, reprimida e acumulada, converte-se fatalmente em violência justificada contra o(s) outro(s), ao invés de assumida responsavelmente como própria e adequadamente encaminhada.

 

Encontrar sentido para a existência

“Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”. (Jo 10, 10b)

 

Crescer ou amadurecer é, portanto, um processo de autoconhecimento que consiste, não só em nos aproximarmos e nos tornarmos conscientes dos obstáculos que nos criaram e das respostas emocionais defensivas que ainda nos cerceiam – e das quais necessitamos nos libertar – mas, para além disso, em acreditar no que potencialmente já somos como possibilidades a desenvolver e que depende de cada um de nós assumir e realizar. É um processo de descoberta dos “talentos” adormecidos que nos solicitam e que, uma vez despertos, ousamos multiplicar, e que, não atendidos, respondem por sentimentos de “cobrança”, de carência ou de vazio.

Mesmo porque, o que todos nós sentimos como carência nem sempre é a falta de algo que nos vem de fora ou que, ilusoriamente, alguém possa nos dar. O desejo de completude nos leva a irmos sempre para além de nós mesmos e precisa ser reconhecido como uma falta, ou sede referente ao potencial ainda não concretizado no caminho da plenitude do amor e da unidade, em que progressivamente passamos da necessidade primária de nos sentirmos aceitos para a possível descoberta de nos sentirmos também capazes de poder acolher, adquirindo sentido próprio a experiência de gratuidade, onde não existe sujeito e objeto de amor e sim inclusão de cada um e comunhão de todos numa totalidade maior que nos transcende.

Ou seja, o outro com o qual nos confrontamos e no qual confiamos ou ao qual tememos, evitamos ou atacamos, pode sempre ser encontrado dentro de nós mesmos. E é na medida em que o encontramos, compreendemos e acolhemos que podemos também sentir-nos verdadeiramente acolhidos. Este é o sentido do perdão que está contido na incondicional aceitação de nós mesmos e que possibilita o despreendimento que nos leva a nos reencontrarmos em cada outro, em convivência pacífica com o diferente.

 

A caminho de uma ética cristã

               “Deus é Amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1Jo 4, 16)

 

As maiores dificuldades em relação a conceitos que implicam relações humanas como: amor, paz, confiança, fidelidade, caridade, perdão, obediência, respeito, consideração, tolerância, solidariedade, compaixão, e outros tantos, reside no fato de que oferecer conceitos não é suficiente para promover a experiência de se sentir acolhido como parte única e participativa duma unidade amorosa maior e totalizadora que engloba e assume todas as diferenças. E à força de serem repetidos para os outros, mas destituídos de significado pessoal e vivencial, esses conceitos mais separam do que unem, numa verdadeira torre de babel, onde falta o diálogo e o entendimento porque cada qual, sustentando uma linguagem e interpretação próprias, carregadas de racionalizações e justificativas – ao mesmo tempo identificadas como a única e absoluta verdade – se recusa a escutar e entender a linguagem do outro – do diferente, visto quase sempre como inimigo. E isso faz parte do sistema de defesa, ou, como se diz: “a melhor defesa é o ataque”.

Tem me sido dado observar que há muitos “ateus” de boa vontade que manifestam uma confiança quase ilimitada na Sabedoria da Vida como algo que os transcende e à qual se submetem, enquanto tantas outras pessoas “religiosas” – na falta desta fé – e, em troca de uma certa segurança psíquica, apegam-se de forma tão dependente a estruturas e grupos, que se vêem impedidas de ir além e de chegar a si mesmas, no sentido de dar uma resposta pessoal e autêntica à pergunta de Cristo: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8, 29) ou: Quem é você e quem sou eu para você? Esta é a prisão, acredito, da qual os não-religiosos querem estar livres.

É de supor que os primeiros estejam mais próximos de Jesus que nos ensina a ultrapassar a lei, antes necessária, e nos precede no sentimento filial de confiança e de entrega ao Pai acolhedor, que não faz acepção de pessoas e – fonte da Vida – a todos disponibiliza sua Sabedoria.

          Se almejamos, portanto, nos aproximar de uma ética cristã e defendê-la, sejamos os primeiros a nos dedicar à ESCUTA e a ver o diferente com o olhar de Cristo, que compreendeu, acolheu, perdoou e amou também aqueles que não puderam aceitá-lo.                   

Nilza Maria F. de Lacerda
Psicóloga, formada em Biologia, com estudos nas áreas de Filosofia, Teologia, Antropologia  e Sociologia.

Fonte: Instituto de Biética de Jundiaí

 

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