A descriminalização do aborto é rejeitada pela maioria dos deputados da futura legislatura

 

 

Criminalização da homofobia, legalização do aborto e casamento gay são temas que voltarão à pauta do Congresso

Depois de protagonizar a campanha presidencial, a polêmica sobre o aborto e temas ligados à comunidade gay promete acirrar ânimos no novo Congresso, que toma posse na terça-feira, destaca neste domingo o jornal Folha de S.Paulo. Arquivado no início de janeiro pelo Senado, o projeto que criminaliza a homofobia vai ser a primeira pauta a causar polêmica no Legislativo. A proposta prevê punição para uma série de discriminações e preconceitos, entre eles pela orientação sexual.

Senadores ligados à causa gay se articulam para recolher as 27 assinaturas necessárias para desarquivá-lo. O texto já havia tramitado por duas legislaturas sem ir a votação no plenário. A senadora eleita Marta Suplicy (PT-SP) lidera o movimento para a retomada da matéria. “Assim que estiver empossada, iniciarei as conversas para obter as assinaturas. Tenho me manifestado em assumir a relatoria desde já”, disse ela.

A principal barreira para a aprovação do texto está na bancada evangélica, que vê a possibilidade de censura às pregações dos pastores.

O presidente da ABLGT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, disse que adotará estratégia mais enérgica em favor do projeto. “Fizemos todas a concessões possíveis.” Reis antevê outra batalha, para o segundo semestre: o projeto que regulamenta o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Até então, o foco vinha sendo a aprovação da união homoafetiva, mas a comunidade gay quer ampliar o debate.

Outra polêmica engatilhada é a legalização do aborto. Uma nova minuta de projeto de lei está em discussão pelas feministas e pode chegar ao Congresso neste semestre.

Telia Negrão, secretária-executiva da Rede Feminista de Saúde, esteve com os ministros Alexandre Padilha (Saúde) e Maria do Rosário (Direitos Humanos) neste mês para discutir o assunto, entre outros itens da pauta.

O movimento de mulheres quer o engajamento do governo federal na aprovação da proposta.

O outro lado da disputa não está paralisado e se articula para frear as iniciativas. O dia da posse dos novos congressistas, na terça-feira, será festejado com o “Show Vida”, evento católico que ocorrerá em Brasília e é articulado por parlamentares ligados à igreja -caso do recém-eleito deputado Eros Biondini (PTB-MG). “Já fiz outros shows como esse. No dia da posse, [o objetivo] é fincar uma das nossas bandeiras”, afirma o eleito. Biondini promete reapresentar, se necessário, o chamado Estatuto do Nascituro, projeto que garante o direito à vida mesmo antes do nascimento.

Como medida imediata, o grupo “pró-vida” no Congresso vai tentar a revogação da resolução do Conselho Federal de Medicina que confirmou o uso da reprodução assistida por casais gays.

Fonte: Folha de S.Paulo

A descriminalização do aborto é rejeitada pela maioria dos deputados da futura legislatura

À pergunta “É favorável à descriminalização do aborto?”, 267 disseram “não”, 78, “sim”, 37, “em termos”, e 32 não souberam responder, totalizando 414 dos 513 deputados que farão parte da nova legislatura, que se inicia na terça-feira (1º).

O levantamento do G1 ouviu opiniões a respeito de 13 temas polêmicos.  A reportagem conseguiu contato com 446 dos 513 futuros deputados. Desses 446, 414 responderam ao questionário e 32 não quiseram responder. Outros 67, mesmo procurados por telefone ou por intermédio das assessorias durante semanas consecutivas, não deram resposta – positiva ou negativa – às solicitações (leia mais sobre a metodologia ao final do texto).

Os 267 deputados que se declaram contra a descriminalização do aborto representam 52% dos 513 que comporão a Câmara e 64,4% dos 414 que responderam ao questionário.

Desde a década de 1990, mais de 50 projetos sobre o tema aborto foram apresentados na Câmara dos Deputados. A maior parte propõe mudanças em artigos do Código Penal, para abrandar ou aumentar penas a médicos e mulheres que praticam o aborto.

Outros projetos propõem a liberação total do aborto, estipulando prazos de até 90 dias de gestação para a prática; outros regulamentam o aborto apenas para casos de fetos sem cérebro ou com má-formação. Alguns dos projetos aguardam apreciação do plenário desde 1991.

Aborto e política

A legalização do aborto é um tema controverso, que ganhou relevância durante a campanha presidencial de 2010, depois de a então candidata Dilma Rousseff ter sido acusada de defender a prática. Durante a campanha, Dilma disse que o assunto era uma questão de saúde pública.

Em dezembro passado, o governador do Rio, Sérgio Cabral, tratou do tema. Segundo ele, a atual legislação sobre aborto no país é uma “vergonha” e há “hipocrisia” na discussão sobre o assunto.

Em 2007, em entrevista exclusiva ao G1, Cabral havia defendido o aborto como forma de combater a violência no Rio de Janeiro. “Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”, declarou na época.

Cabral usou como argumento teses do livro “Freakonomics”, dos norte-americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que estabelece relação entre a legalização do aborto e a redução da violência nos EUA.

Levantamento

O levantamento do G1 teve início em 29 de novembro e foi finalizado em 27 de janeiro. Envolveu uma equipe de 27 jornalistas de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

A reportagem procurou todos os 513 deputados que assumirão mandatos na Câmara. No caso dos deputados que assumiram cargos no governo federal, em estados ou municípios, o G1 procurou o primeiro suplente das coligações para responder ao questionário.

Embora decisão de dezembro do Supremo Tribunal Federal diga que o suplente a ser empossado é o do partido (em razão de entendimento de que o mandato parlamentar pertence ao partido), o G1 procurou os suplentes das coligações. Isso porque essa decisão do Supremo vale para um caso específico e não se aplica automaticamente a situações semelhantes. De acordo com o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), tomarão posse em 1º de fevereiro os suplentes das coligações.

A maioria dos parlamentares respondeu às perguntas por telefone, mas uma parte preferiu receber o questionário por e-mail para devolvê-lo impresso. Em todos os casos, os deputados foram informados de que não teriam suas respostas individualizadas.

 

Democracia, Direito Humanos e Defesa da Vida

 

 

 

 

 

<<<  Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até a morte natural  >>>

 Christifideles laici, 38

 

 

 

 

 

Luta de vida ou morte

 

A realidade do aborto nos Estados Unidos

 

Com os novos membros da Câmara Legislativa dos Estados Unidos, parece que o aborto vai continuar sendo um tema candente. O deputado Mike Pence apresentou uma proposta de lei com outros 122 co-patrocinadores para acabar com o financiamento federal a quem aborta, conforme o Christian Newswire de 7 de janeiro.

A Planned Parenthood é a organização que mais perderia com a nova lei. Segundo Pence, a Planned Parenthood recebeu no ano passado 363 milhões de dólares de fundos do governo federal. Nesse período, a organização realizou 324.008 abortos, 5,8% a mais que no ano anterior.

Pence declarou sua oposição ao aborto e enfatizou que “é imoral tirar os dólares de impostos de milhões de norte-americanos contrários ao aborto para usá-los na promoção do aborto no país ou no exterior”.

Neste mês, a Planned Parenthood também é alvo de publicidade negativa com a publicação do livro “unPLANNED”, de Abby Johnson, ex-funcionária de uma clínica de abortos.

Durante oito anos, ela trabalhou primeiro como voluntária e depois como contratada da Planned Parenthood. Seu apoio ao aborto mudou drasticamente no dia em que lhe pediram ajuda na execução de um: ela foi testemunha, graças ao ultrassom, de como um bebê de 13 semanas lutava pela vida enquanto o procedimento era realizado.

Numa entrevista publicada em 11 de janeiro no site do National Catholic Register, Johnson afirmou que nunca tinha visto um monitor de ultrassom durante um aborto até então. Ela era diretora da clínica em Bryan, Texas.

Johnson explicou que a Planned Parenthood sempre tinha lhe dito que um feto não possuía desenvolvimento sensorial até as 28 semanas. Essa afirmação contradizia o que ela mesma tinha visto na tela do ultrassom: o feto lutando para não ser sugado.

Seu livro descreve como essa experiência a fez abandonar o trabalho na clínica. O texto conta o seu caminho desde a universidade até virar chefe de uma clínica e depois a sua transformação em defensora pró-vida.

A Planned Parenthood tentou evitar a publicação do livro, mas não conseguiu. O que mais preocupava a organização era a descrição de como ela pressionava para que a clínica de Johnson aumentasse o número de abortos por causa do grande lucro gerado pelos procedimentos.

Estatísticas preocupantes

Não há estatísticas oficiais totais do número de abortos nos Estados Unidos. Uma boa ideia da situação, no entanto, pode ser obtida a partir do estudo publicado em 11 de janeiro pelo abortista Guttmacher Institute.

Segundo o estudo, baseado num censo das instituições abortistas conhecidas, parou de cair o número de abortos, fenômeno que era uma constante desde 1981. O instituto afirmou que a taxa de 2008 foi de 19,6 abortos por cada 1.000 mulheres de 15 a 44 anos. É um pequeno aumento em comparação com os 19,4 de 2005.

O número total de abortos em 2008 (1,21 milhão) subiu ligeiramente, em cerca de 6.000. O número de instituições abortivas também mostrou pequeno crescimento, de 1.787 para 1.793 entre 2005 e 2008.

O censo descobriu ainda um aumento no uso do aborto farmacológico em vez dos procedimentos cirúrgicos nas primeiras etapas da gravidez, normalmente por meio do abortivo RU-486.

Em artigo de 11 de janeiro, analisando os últimos números, o Washington Post proporcionou mais informação sobre o uso da RU-486. Em 2010, seu uso subiu 24% em comparação com 2009, passando de 161.000 para 199.000. Representa 17% de todos os abortos.

A reação do Guttmacher Institute a esses dados foi defender maior acesso aos serviços contraceptivos e a garantia de uso dos serviços abortivos para as mulheres.

Na contramão, Jeanne Monahan, diretora do Family Research Council do Center of Human Dignity, pediu mais esforço para se reduzir o número de abortos.

Num comunicado de imprensa, também de 11 de janeiro, Monahan louvou as organizações de defesa da vida e destacou que as pesquisas mostram um número crescente de norte-americanos que se declaram pró-vida.

Monahan criticou a campanha do Guttmacher Institute para eliminar as restrições ao aborto: “Como eles podem dizer que a taxa de abortos não é alta demais?”.

Um comentário sobre o informe publicado no mesmo dia pela LifeNews.com abordou a tese do instituto de que mais contraceptivos reduziriam os abortos.

O artigo destacou que o mesmo estudo mostrava que a maioria dos abortos (54%) acontecia quando os anticoncepcionais falhavam. Os últimos dados da Espanha parecem corroborar esta análise, mostrando um aumento do número de abortos apesar de ter havido ao mesmo tempo muitíssima divulgação do planejamento familiar.

Dado que a pílula e os chamados “métodos de barreira” apresentam falhas, junto com o fato de as pessoas nem sempre os usarem adequadamente, o artigo defendia que o controle da natalidade é simplesmente incapaz de eliminar as gravidezes “indesejadas”.

Pavoroso

Pouco antes da publicação dos últimos números, o arcebispo de Nova Iorque, Dom Timothy M. Dolan, divulgou um chamamento à redução dos abortos na cidade.

“É claramente pavoroso que 41% dos bebês de Nova Iorque sejam abortados, e que esse número chegue a ser maior ainda no Bronx e no caso dos nossos bebês afro-americanos”, declarou em entrevista coletiva de 6 de janeiro, na Chiaroscuro Foundation do Penn Club de Nova Iorque.

O arcebispo observou que Nova Iorque é conhecida por acolher os imigrantes e agregou: “Tragicamente, estamos deixando de lado o menor de todos, o mais frágil e vulnerável: o bebê no ventre materno”.

Em reportagem de 7 de janeiro sobre essa entrevista coletiva, o New York Times explica que se tratava de um esforço conjunto de vários líderes religiosos, coordenados pela Chiaroscuro Foundation, uma entidade sem fins lucrativos financiada de forma privada por seu presidente, Sean Fieler, dono de um banco de investimentos.

A cifra de 42% vinha de um informe do departamento de saúde da cidade. As estatísticas mostravam que tinham acontecido 87.273 abortos em 2009, número abaixo dos 94.466 de 2000. O informe também revelava que a taxa de abortos por gravidez nas mulheres negras era próxima de 60%.

Não se costuma falar da taxa de abortos tão alta que há entre as mulheres negras, algo que organizações como TooManyAborted.com estão tentando mudar.

Segundo a informação publicada em sua página na internet, cerca de 40% de todas as gravidezes de mulheres negras terminam em aborto. Esta cifra é o triplo em relação às mulheres brancas e o dobro em relação a todas as raças combinadas.

A página na internet também explica que a pressão pelos “direitos reprodutivos” tem sua origem em uma mentalidade elitista promovida pela fundadora do Planned Parenthood, Margaret Sanger. Ela e outros trabalharam duro para promover o aborto entre os negros e os pobres.

Todas essas notícias surgiram enquanto se preparava o maior evento pró-vida do ano, a Marcha pela Vida de 24 de janeiro, em Washington D. C. A Igreja Católica celebrou o acontecimento com uma Vigília Nacional de Oração, de 23 a 24 de janeiro, na Basílica da Capela Nacional da Imaculada Conceição.

A vigília abriu com uma Missa, presidida pelo cardeal Daniel N. DiNardo, presidente do Comitê pró-Vida da Conferência Episcopal dos Estados Unidos.

Ainda que a manifestação normalmente receba pouca cobertura da mídia, atrai um grande número de pessoas, muitas delas jovens. Seu êxito mostra como o destino das crianças abortadas continua sendo um tema que congrega muita gente.

Pe. John Flynn, L.C.

Fonte: Zenit Org

 

BIG BROTHER BRASIL – Uma reflexão

 
 
 
Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço…A décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,… encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros… todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE…

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.

Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.

Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportamento humano”. Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema…, estudar… , ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins… , telefonar para um amigo… , visitar os avós… , pescar…, brincar com as crianças… , namorar… ou simplesmente dormir.

Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.

Luiz Fernando Veríssimo

 

            

A ética da Vida !

 

 

 

 

Antes de tudo, a Vida

 

“Que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou, que poderá o homem dar em troca de sua vida?” (Mt 16, 26)

 

Já que o homem não existe por si e de forma isolada, mas se constitui num feixe de relações de interdependência com os outros (pessoas, coisas, natureza, sociedade) e com o mundo em geral que se expande em universo, o exercício da ética deve levar em conta valores essenciais que se referem, acima de tudo, à Vida.

Referir-se à Vida, nos leva a considerar que ela não se restringe às subjetividades em si, ou apenas aos aspectos materiais, biológicos e psíquicos do convívio humano; e nem mesmo unicamente ao humano. Ela abrange todo o ambiente que a sustenta, no qual se insere e atua o ser humano; e vai além, remetendo-nos ao mistério que ainda não alcançamos – sua origem – para a qual muitos admitem um criador (ou seja, uma vontade livre e soberana), enquanto, para outros, representa obra do mero acaso.

Aqui, é preciso reconhecer que a ciência e a tecnologia, com todo o avanço até hoje alcançado no sentido de decifrar, manipular, reproduzir, transplantar, redirecionar, tentar corrigir ou aperfeiçoar os processos vitais, limitam-se a atuar sobre material vivo pré-existente, nunca na sua criação a partir de elementos constituintes mais simples. Ou seja, não produzimos vida; são atributos dela mesma se transformar, se expandir, se reproduzir, morrer aqui e renascer ali, ou até mesmo – diria eu – se dar a conhecer e se deixar manipular.

Estaríamos, pois, iludidos se, diante das possibilidades que ela nos oferece para compreendê-la e cooperarmos com ela, acreditássemos, a partir daí, que a dominamos.

Mesmo as mais extraordinárias conquistas em curso, em termos de inteligência artificial, não nos permitem visualizar uma ultrapassagem da máquina – que é concebida – ao modelo original da mente humana – que a concebe – em suas, já dadas, capacidades e possibilidades que aí se mostram em expansão.

A Ética da Vida na Consciência do Homem

               “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8, 12)

 

Embora o termo bioética seja relativamente recente e venha sendo aplicado de forma mais restrita aos procedimentos éticos nas biociências, pode-se dizer que toda ética – que busca refletir sobre o comportamento humano com base nos valores subjacentes que ditam nossas atitudes e decisões, inclusive na aplicação dos conhecimentos que vamos adquirindo – emana da própria Vida, podendo ser apreendida pela consciência receptiva, que é a marca da humanidade.

Só o ser humano pode ser ético, e ao alcançar uma certa maturidade.

Torna-se, pois, relevante refletir sobre as questões éticas (ou bioéticas) que partem do valor e da dignidade de todo ser humano, não como evidência dada por si mesma e em caráter absoluto; e ainda menos como sujeita a critérios pessoais ou mesmo, objetivos e científicos. Importa considerar uma antropologia que nos permita responder quem somos, com a consciência das relações que nos situam num horizonte mais amplo que, indo além de nós mesmos, abrange toda a Vida em sua essência.

É pela consciência que se torna possível ao ser humano – e só a ele – ter acesso ao conhecimento do “ser que ele é em sua essência” e, ao pôr-se de acordo com ela, realizá-la, realizando-se autenticamente. Isso significa que ele só se torna verdadeiramente humano, isto é, livre, e de maneira responsável, na medida em que aprende a sair de si (eu e suas defesas), a abrir-se confiantemente à Vida e a deixar-se conduzir pela Verdade do seu Ser.

 

Inclusão e participação na constituição do Eu

                 “… conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8, 32) 

 

Cada individualidade, percebida como eu, precisa evidentemente constituir-se através de um processo que o vai diferenciando do não-eu, que é o outro. Mas é aqui que o risco da separação como oposição (ou eu ou o outro) e não como participação e complementariedade (ser eu com o outro) também se apresenta e pode consolidar-se.

Educar para a liberdade responsável não se resume a exercer autoridade, exigindo comportamentos já selecionados, sem uma verdadeira escuta do diferente, que leva em conta a realidade atual do educando, as possibilidades que podem ser esperadas e estimuladas e, acima de tudo, os sentimentos envolvidos na relação com ele.

Trata-se mais de confiar e esperar que comportamentos e atitudes – desde que possibilitados – sejam escolhidos e assumidos conscientemente como a melhor opção, entre outras, para a sua própria realização como pessoa humana. E isso exige tempo, paciência, aceitação de erros próprios e alheios, além de diálogo com muita escuta, virtudes só encontradas, me parece, em quem se deixa orientar pela Sabedoria da Vida (ou o próprio Ser de Deus), que pode ser descoberta e encontrada em todos nós como princípio (ou graça), mas nunca como propriedade particular.

 

Confiança é fundamental

               “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas”. (Mt 11, 29)

 

O inevitável egocentrismo infantil (por necessidade e dependência) requer a contrapartida da maturidade adulta – que é amor como acolhimento incondicional e inclusão – e eles não podem, portanto, excluir-se mutuamente, mas necessariamente coexistir durante todo o lento e freqüentemente difícil processo de crescimento e amadurecimento, onde o exclusivo receber vai sendo substituído gradativamente pelo compartilhar e, a partir daí, pelo doar-se, na medida das possibilidades e limites – do momento e de cada um – que vai se traduzindo em respeito e tolerância fundamentados na confiança recíproca. A oposição por parte do adulto, na forma de ameaça de rejeição e exclusão, pode facilmente obter um comportamento desejado na criança, mas ele não será autêntico. Estimula-se, assim, a falsidade e a hipocrisia.

Relacionamentos, no que diz respeito ao humano, são estabelecidos a partir de atitudes individuais fundamentadas ou na confiança (e em valores conscientemente assumidos como próprios no processo de amadurecimento e socialização), ou no nível emocional inconsciente ainda desorientado onde predominam o medo, a hostilidade e a necessidade de controle sobre o outro e sobre o mundo, vistos como ameaça.

Então, como poderíamos exigir de uma pessoa que nunca se sentiu acolhida na comunidade humana manifestar, em relação aos outros, esse mesmo acolhimento, a menos que a acolhamos nós, se é que já alcançamos essa condição de ajudá-la a descobrir em si mesma essa possibilidade já dada e à espera de efetivar-se para seu próprio benefício e realização?

 

O sentir-se excluído opera na marginalidade

               “… quem caminha no escuro não sabe para onde vai!” (Jo 12, 35)

 

Sair das autodefesas de forma construtiva – ao invés de competitiva e destrutiva – na conquista de uma liberdade responsável parece ser o maior desafio a enfrentar para cada um de nós, seres humanos, porque uma atitude confiante básica – a que chamamos – nos é necessária para isso.

E essa atitude muitas vezes nos falta porque, assim como pode ser promovida, também pode ter sido dificultada – e às vezes até mesmo impedida – pelo ambiente social que nos rodeia e nos influencia, particularmente nos primeiros anos de vida, quando somos mais vulneráveis e inteiramente dependentes dele. E não é raro que essa dependência acabe por condicionar, principalmente nos menos favorecidos, uma falta de confiança no mundo e em si mesmos que os encarcera em suas defesas – a princípio tão imprescindíveis para a sobrevivência – a ponto de inviabilizar níveis suficientes de desenvolvimento para assumir-se responsavelmente, expostos que são a toda sorte de condições, exigências, injustiças, contradições, emoções descontroladas e violência por parte dos “responsáveis”, diretos ou indiretos, que também não alcançaram aquela condição.

Vale dizer: mesmo que não assumidas conscientemente, cada individualidade está sujeita, por uma questão de sobrevivência, a um processo contínuo de escolhas que refletem ou um fechamento temeroso ou uma abertura esperançosa para ir além de seus medos e condicionamentos, quer se encontrem conscientizados e compreendidos, quer inconscientizados pela negação.

Assim, o ser humano é também o único ente – ou existente – que tem a possibilidade de recusar-se ao seu ser mais próprio, isto é, de permanecer cego ou indiferente a ele por ignorá-lo ou temê-lo e, alienado de si mesmo (inconsciência), perder-se na massa (a gente, todo mundo, o grupo) ou, egoisticamente, destacar-se dela na conquista de um poder que não lhe é próprio, mas que esconde um permanente conflito consigo mesmo onde residem sentimentos negados de mágoa, culpa e, a nível ainda mais profundo, de medo frente ao desamparo e à impotência, cedo e terrivelmente já experimentados (Hitler seria um bom exemplo). É também aí que a agressividade, reprimida e acumulada, converte-se fatalmente em violência justificada contra o(s) outro(s), ao invés de assumida responsavelmente como própria e adequadamente encaminhada.

 

Encontrar sentido para a existência

“Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”. (Jo 10, 10b)

 

Crescer ou amadurecer é, portanto, um processo de autoconhecimento que consiste, não só em nos aproximarmos e nos tornarmos conscientes dos obstáculos que nos criaram e das respostas emocionais defensivas que ainda nos cerceiam – e das quais necessitamos nos libertar – mas, para além disso, em acreditar no que potencialmente já somos como possibilidades a desenvolver e que depende de cada um de nós assumir e realizar. É um processo de descoberta dos “talentos” adormecidos que nos solicitam e que, uma vez despertos, ousamos multiplicar, e que, não atendidos, respondem por sentimentos de “cobrança”, de carência ou de vazio.

Mesmo porque, o que todos nós sentimos como carência nem sempre é a falta de algo que nos vem de fora ou que, ilusoriamente, alguém possa nos dar. O desejo de completude nos leva a irmos sempre para além de nós mesmos e precisa ser reconhecido como uma falta, ou sede referente ao potencial ainda não concretizado no caminho da plenitude do amor e da unidade, em que progressivamente passamos da necessidade primária de nos sentirmos aceitos para a possível descoberta de nos sentirmos também capazes de poder acolher, adquirindo sentido próprio a experiência de gratuidade, onde não existe sujeito e objeto de amor e sim inclusão de cada um e comunhão de todos numa totalidade maior que nos transcende.

Ou seja, o outro com o qual nos confrontamos e no qual confiamos ou ao qual tememos, evitamos ou atacamos, pode sempre ser encontrado dentro de nós mesmos. E é na medida em que o encontramos, compreendemos e acolhemos que podemos também sentir-nos verdadeiramente acolhidos. Este é o sentido do perdão que está contido na incondicional aceitação de nós mesmos e que possibilita o despreendimento que nos leva a nos reencontrarmos em cada outro, em convivência pacífica com o diferente.

 

A caminho de uma ética cristã

               “Deus é Amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1Jo 4, 16)

 

As maiores dificuldades em relação a conceitos que implicam relações humanas como: amor, paz, confiança, fidelidade, caridade, perdão, obediência, respeito, consideração, tolerância, solidariedade, compaixão, e outros tantos, reside no fato de que oferecer conceitos não é suficiente para promover a experiência de se sentir acolhido como parte única e participativa duma unidade amorosa maior e totalizadora que engloba e assume todas as diferenças. E à força de serem repetidos para os outros, mas destituídos de significado pessoal e vivencial, esses conceitos mais separam do que unem, numa verdadeira torre de babel, onde falta o diálogo e o entendimento porque cada qual, sustentando uma linguagem e interpretação próprias, carregadas de racionalizações e justificativas – ao mesmo tempo identificadas como a única e absoluta verdade – se recusa a escutar e entender a linguagem do outro – do diferente, visto quase sempre como inimigo. E isso faz parte do sistema de defesa, ou, como se diz: “a melhor defesa é o ataque”.

Tem me sido dado observar que há muitos “ateus” de boa vontade que manifestam uma confiança quase ilimitada na Sabedoria da Vida como algo que os transcende e à qual se submetem, enquanto tantas outras pessoas “religiosas” – na falta desta fé – e, em troca de uma certa segurança psíquica, apegam-se de forma tão dependente a estruturas e grupos, que se vêem impedidas de ir além e de chegar a si mesmas, no sentido de dar uma resposta pessoal e autêntica à pergunta de Cristo: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8, 29) ou: Quem é você e quem sou eu para você? Esta é a prisão, acredito, da qual os não-religiosos querem estar livres.

É de supor que os primeiros estejam mais próximos de Jesus que nos ensina a ultrapassar a lei, antes necessária, e nos precede no sentimento filial de confiança e de entrega ao Pai acolhedor, que não faz acepção de pessoas e – fonte da Vida – a todos disponibiliza sua Sabedoria.

          Se almejamos, portanto, nos aproximar de uma ética cristã e defendê-la, sejamos os primeiros a nos dedicar à ESCUTA e a ver o diferente com o olhar de Cristo, que compreendeu, acolheu, perdoou e amou também aqueles que não puderam aceitá-lo.                   

Nilza Maria F. de Lacerda
Psicóloga, formada em Biologia, com estudos nas áreas de Filosofia, Teologia, Antropologia  e Sociologia. Antes de tudo, a Vida

“Que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou, que poderá o homem dar em troca de sua vida?” (Mt 16, 26)

 

Já que o homem não existe por si e de forma isolada, mas se constitui num feixe de relações de interdependência com os outros (pessoas, coisas, natureza, sociedade) e com o mundo em geral que se expande em universo, o exercício da ética deve levar em conta valores essenciais que se referem, acima de tudo, à Vida.

Referir-se à Vida, nos leva a considerar que ela não se restringe às subjetividades em si, ou apenas aos aspectos materiais, biológicos e psíquicos do convívio humano; e nem mesmo unicamente ao humano. Ela abrange todo o ambiente que a sustenta, no qual se insere e atua o ser humano; e vai além, remetendo-nos ao mistério que ainda não alcançamos – sua origem – para a qual muitos admitem um criador (ou seja, uma vontade livre e soberana), enquanto, para outros, representa obra do mero acaso.

Aqui, é preciso reconhecer que a ciência e a tecnologia, com todo o avanço até hoje alcançado no sentido de decifrar, manipular, reproduzir, transplantar, redirecionar, tentar corrigir ou aperfeiçoar os processos vitais, limitam-se a atuar sobre material vivo pré-existente, nunca na sua criação a partir de elementos constituintes mais simples. Ou seja, não produzimos vida; são atributos dela mesma se transformar, se expandir, se reproduzir, morrer aqui e renascer ali, ou até mesmo – diria eu – se dar a conhecer e se deixar manipular.

Estaríamos, pois, iludidos se, diante das possibilidades que ela nos oferece para compreendê-la e cooperarmos com ela, acreditássemos, a partir daí, que a dominamos.

Mesmo as mais extraordinárias conquistas em curso, em termos de inteligência artificial, não nos permitem visualizar uma ultrapassagem da máquina – que é concebida – ao modelo original da mente humana – que a concebe – em suas, já dadas, capacidades e possibilidades que aí se mostram em expansão.

A Ética da Vida na Consciência do Homem

               “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8, 12)

 

Embora o termo bioética seja relativamente recente e venha sendo aplicado de forma mais restrita aos procedimentos éticos nas biociências, pode-se dizer que toda ética – que busca refletir sobre o comportamento humano com base nos valores subjacentes que ditam nossas atitudes e decisões, inclusive na aplicação dos conhecimentos que vamos adquirindo – emana da própria Vida, podendo ser apreendida pela consciência receptiva, que é a marca da humanidade.

Só o ser humano pode ser ético, e ao alcançar uma certa maturidade.

Torna-se, pois, relevante refletir sobre as questões éticas (ou bioéticas) que partem do valor e da dignidade de todo ser humano, não como evidência dada por si mesma e em caráter absoluto; e ainda menos como sujeita a critérios pessoais ou mesmo, objetivos e científicos. Importa considerar uma antropologia que nos permita responder quem somos, com a consciência das relações que nos situam num horizonte mais amplo que, indo além de nós mesmos, abrange toda a Vida em sua essência.

É pela consciência que se torna possível ao ser humano – e só a ele – ter acesso ao conhecimento do “ser que ele é em sua essência” e, ao pôr-se de acordo com ela, realizá-la, realizando-se autenticamente. Isso significa que ele só se torna verdadeiramente humano, isto é, livre, e de maneira responsável, na medida em que aprende a sair de si (eu e suas defesas), a abrir-se confiantemente à Vida e a deixar-se conduzir pela Verdade do seu Ser.

 

Inclusão e participação na constituição do Eu

                 “… conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8, 32) 

 

Cada individualidade, percebida como eu, precisa evidentemente constituir-se através de um processo que o vai diferenciando do não-eu, que é o outro. Mas é aqui que o risco da separação como oposição (ou eu ou o outro) e não como participação e complementariedade (ser eu com o outro) também se apresenta e pode consolidar-se.

Educar para a liberdade responsável não se resume a exercer autoridade, exigindo comportamentos já selecionados, sem uma verdadeira escuta do diferente, que leva em conta a realidade atual do educando, as possibilidades que podem ser esperadas e estimuladas e, acima de tudo, os sentimentos envolvidos na relação com ele.

Trata-se mais de confiar e esperar que comportamentos e atitudes – desde que possibilitados – sejam escolhidos e assumidos conscientemente como a melhor opção, entre outras, para a sua própria realização como pessoa humana. E isso exige tempo, paciência, aceitação de erros próprios e alheios, além de diálogo com muita escuta, virtudes só encontradas, me parece, em quem se deixa orientar pela Sabedoria da Vida (ou o próprio Ser de Deus), que pode ser descoberta e encontrada em todos nós como princípio (ou graça), mas nunca como propriedade particular.

 

Confiança é fundamental

               “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas”. (Mt 11, 29)

 

O inevitável egocentrismo infantil (por necessidade e dependência) requer a contrapartida da maturidade adulta – que é amor como acolhimento incondicional e inclusão – e eles não podem, portanto, excluir-se mutuamente, mas necessariamente coexistir durante todo o lento e freqüentemente difícil processo de crescimento e amadurecimento, onde o exclusivo receber vai sendo substituído gradativamente pelo compartilhar e, a partir daí, pelo doar-se, na medida das possibilidades e limites – do momento e de cada um – que vai se traduzindo em respeito e tolerância fundamentados na confiança recíproca. A oposição por parte do adulto, na forma de ameaça de rejeição e exclusão, pode facilmente obter um comportamento desejado na criança, mas ele não será autêntico. Estimula-se, assim, a falsidade e a hipocrisia.

Relacionamentos, no que diz respeito ao humano, são estabelecidos a partir de atitudes individuais fundamentadas ou na confiança (e em valores conscientemente assumidos como próprios no processo de amadurecimento e socialização), ou no nível emocional inconsciente ainda desorientado onde predominam o medo, a hostilidade e a necessidade de controle sobre o outro e sobre o mundo, vistos como ameaça.

Então, como poderíamos exigir de uma pessoa que nunca se sentiu acolhida na comunidade humana manifestar, em relação aos outros, esse mesmo acolhimento, a menos que a acolhamos nós, se é que já alcançamos essa condição de ajudá-la a descobrir em si mesma essa possibilidade já dada e à espera de efetivar-se para seu próprio benefício e realização?

 

O sentir-se excluído opera na marginalidade

               “… quem caminha no escuro não sabe para onde vai!” (Jo 12, 35)

 

Sair das autodefesas de forma construtiva – ao invés de competitiva e destrutiva – na conquista de uma liberdade responsável parece ser o maior desafio a enfrentar para cada um de nós, seres humanos, porque uma atitude confiante básica – a que chamamos – nos é necessária para isso.

E essa atitude muitas vezes nos falta porque, assim como pode ser promovida, também pode ter sido dificultada – e às vezes até mesmo impedida – pelo ambiente social que nos rodeia e nos influencia, particularmente nos primeiros anos de vida, quando somos mais vulneráveis e inteiramente dependentes dele. E não é raro que essa dependência acabe por condicionar, principalmente nos menos favorecidos, uma falta de confiança no mundo e em si mesmos que os encarcera em suas defesas – a princípio tão imprescindíveis para a sobrevivência – a ponto de inviabilizar níveis suficientes de desenvolvimento para assumir-se responsavelmente, expostos que são a toda sorte de condições, exigências, injustiças, contradições, emoções descontroladas e violência por parte dos “responsáveis”, diretos ou indiretos, que também não alcançaram aquela condição.

Vale dizer: mesmo que não assumidas conscientemente, cada individualidade está sujeita, por uma questão de sobrevivência, a um processo contínuo de escolhas que refletem ou um fechamento temeroso ou uma abertura esperançosa para ir além de seus medos e condicionamentos, quer se encontrem conscientizados e compreendidos, quer inconscientizados pela negação.

Assim, o ser humano é também o único ente – ou existente – que tem a possibilidade de recusar-se ao seu ser mais próprio, isto é, de permanecer cego ou indiferente a ele por ignorá-lo ou temê-lo e, alienado de si mesmo (inconsciência), perder-se na massa (a gente, todo mundo, o grupo) ou, egoisticamente, destacar-se dela na conquista de um poder que não lhe é próprio, mas que esconde um permanente conflito consigo mesmo onde residem sentimentos negados de mágoa, culpa e, a nível ainda mais profundo, de medo frente ao desamparo e à impotência, cedo e terrivelmente já experimentados (Hitler seria um bom exemplo). É também aí que a agressividade, reprimida e acumulada, converte-se fatalmente em violência justificada contra o(s) outro(s), ao invés de assumida responsavelmente como própria e adequadamente encaminhada.

 

Encontrar sentido para a existência

“Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”. (Jo 10, 10b)

 

Crescer ou amadurecer é, portanto, um processo de autoconhecimento que consiste, não só em nos aproximarmos e nos tornarmos conscientes dos obstáculos que nos criaram e das respostas emocionais defensivas que ainda nos cerceiam – e das quais necessitamos nos libertar – mas, para além disso, em acreditar no que potencialmente já somos como possibilidades a desenvolver e que depende de cada um de nós assumir e realizar. É um processo de descoberta dos “talentos” adormecidos que nos solicitam e que, uma vez despertos, ousamos multiplicar, e que, não atendidos, respondem por sentimentos de “cobrança”, de carência ou de vazio.

Mesmo porque, o que todos nós sentimos como carência nem sempre é a falta de algo que nos vem de fora ou que, ilusoriamente, alguém possa nos dar. O desejo de completude nos leva a irmos sempre para além de nós mesmos e precisa ser reconhecido como uma falta, ou sede referente ao potencial ainda não concretizado no caminho da plenitude do amor e da unidade, em que progressivamente passamos da necessidade primária de nos sentirmos aceitos para a possível descoberta de nos sentirmos também capazes de poder acolher, adquirindo sentido próprio a experiência de gratuidade, onde não existe sujeito e objeto de amor e sim inclusão de cada um e comunhão de todos numa totalidade maior que nos transcende.

Ou seja, o outro com o qual nos confrontamos e no qual confiamos ou ao qual tememos, evitamos ou atacamos, pode sempre ser encontrado dentro de nós mesmos. E é na medida em que o encontramos, compreendemos e acolhemos que podemos também sentir-nos verdadeiramente acolhidos. Este é o sentido do perdão que está contido na incondicional aceitação de nós mesmos e que possibilita o despreendimento que nos leva a nos reencontrarmos em cada outro, em convivência pacífica com o diferente.

 

A caminho de uma ética cristã

               “Deus é Amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1Jo 4, 16)

 

As maiores dificuldades em relação a conceitos que implicam relações humanas como: amor, paz, confiança, fidelidade, caridade, perdão, obediência, respeito, consideração, tolerância, solidariedade, compaixão, e outros tantos, reside no fato de que oferecer conceitos não é suficiente para promover a experiência de se sentir acolhido como parte única e participativa duma unidade amorosa maior e totalizadora que engloba e assume todas as diferenças. E à força de serem repetidos para os outros, mas destituídos de significado pessoal e vivencial, esses conceitos mais separam do que unem, numa verdadeira torre de babel, onde falta o diálogo e o entendimento porque cada qual, sustentando uma linguagem e interpretação próprias, carregadas de racionalizações e justificativas – ao mesmo tempo identificadas como a única e absoluta verdade – se recusa a escutar e entender a linguagem do outro – do diferente, visto quase sempre como inimigo. E isso faz parte do sistema de defesa, ou, como se diz: “a melhor defesa é o ataque”.

Tem me sido dado observar que há muitos “ateus” de boa vontade que manifestam uma confiança quase ilimitada na Sabedoria da Vida como algo que os transcende e à qual se submetem, enquanto tantas outras pessoas “religiosas” – na falta desta fé – e, em troca de uma certa segurança psíquica, apegam-se de forma tão dependente a estruturas e grupos, que se vêem impedidas de ir além e de chegar a si mesmas, no sentido de dar uma resposta pessoal e autêntica à pergunta de Cristo: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8, 29) ou: Quem é você e quem sou eu para você? Esta é a prisão, acredito, da qual os não-religiosos querem estar livres.

É de supor que os primeiros estejam mais próximos de Jesus que nos ensina a ultrapassar a lei, antes necessária, e nos precede no sentimento filial de confiança e de entrega ao Pai acolhedor, que não faz acepção de pessoas e – fonte da Vida – a todos disponibiliza sua Sabedoria.

          Se almejamos, portanto, nos aproximar de uma ética cristã e defendê-la, sejamos os primeiros a nos dedicar à ESCUTA e a ver o diferente com o olhar de Cristo, que compreendeu, acolheu, perdoou e amou também aqueles que não puderam aceitá-lo.                   

Nilza Maria F. de Lacerda
Psicóloga, formada em Biologia, com estudos nas áreas de Filosofia, Teologia, Antropologia  e Sociologia.

Fonte: Instituto de Biética de Jundiaí

 

Dia Nacional de Combate ao Trabalho escravo

 

Nesta sexta-feira, 28, o Brasil comemora o Dia de Combate ao Trabalho Escravo, data que teve início em 2004, após o assassinato de quatro funcionários do Ministério do Trabalho, quando apuravam denúncia de trabalho escravo na zona rural de Unaí, Minas Gerais. No Brasil este atentado contra a dignidade humana ainda vitima milhares de pessoas.

Segundo levantamentos do Observatório Social, nos últimos quinze anos foram libertadas mais de 38 mil pessoas em diferentes regiões do Brasil. Estima-se que mais de 25 mil entram no ciclo do trabalho escravo a cada ano. A entidade aponta os fatores que levam à continuidade do trabalho escravo no país. “Três fatores contribuem diretamente para que esta triste realidade ainda perdure: ganância, miséria, impunidade”.

O assessor da Pastoral Afrobrasileira da CNBB, padre Ari Antônio dos Reis, destaca que a Igreja ainda há muitos desafios para superar as feridas do trabalho escravo. “Persistem alguns desafios para a Igreja e a sociedade voltados na perspectiva de enfrentamento e superação desta realidade. Destacam-se a fiscalização eficiente, a mobilização social contra esta prática, a reforma agrária, superação da miséria e o fim da impunidade”, apontou.

O dia 28 também assinala o início da Semana de Combate ao Trabalho Escravo. Em diferentes localidades acontecerão eventos voltados ao debate sobre esta realidade. Uma das demandas que os grupos julgam necessária é a aprovação PEC 438 que prevê o confisco e a destinação das propriedades flagradas com mão de obra escrava para a Reforma Agrária.

 Piauí

Entidades representativas do Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Escravo que defendem ações de fortalecimento na erradicação do trabalho escravo no Piauí realizam manifestações no Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.

Entre as atividades desta sexta-feira, o Fórum programa Carta-Manifesto será entregue às autoridades do estado e à imprensa local; haverá ainda audiência pública com o Governo para conhecimento das propostas do Piauí na superação do trabalho escravo; manifestações artísticas; exposição fotográfica dos movimentos sociais e das fiscalizações do trabalho; panfletagem. As atividades acontecem no Canteiro Central da Avenida Frei Serafim, em frente à Superintendência Regional do Trabalho e Emprego – SRTE/PI, no horário de 08 às 11h.

Segundo o Fórum, o protesto é mais do que necessário para alertar as autoridades e população do estado que ainda tem muito que indignar-se neste dia, tendo em vista que o Piauí, um dos mais aliciados do Nordeste, encabeça anualmente, a Lista Suja Nacional de Empregadores, que o coloca na situação não tão somente de aliciamento, mas também de prática de mão de obra escrava crescente.

Fonte: www.cnbb.org.br